Analgesia em pediatria

Roger Shoji Miyake

Editor de Pediatria do MedCenter, Pediatra, especialista em Terapia Intensiva

1. Introdução

            A Associação Internacional do Estudo da Dor definiu a dor como "uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a dano tissular presente ou potencial" (1).

Sabe-se que a partir da 20a semana de gestação as vias aferentes sensitivas já estão formadas, produzindo mediadores neuroquímicos capazes de transmitir estímulos dolorosos (2), derrubando a crença de que as crianças, sobretudo os recém-nascidos, não possuem um sistema nervoso central (SNC) maduro suficiente para a transmissão do estímulo doloroso, o que autorizava a realização de procedimentos invasivos, sem qualquer analgesia ou anestesia.

A interpretação do estímulo doloroso é individual e sofre influência dos padrões culturais, do grau de medo e ansiedade e das experiências dolorosas prévias. A partir desta percepção da dor pelo SNC, são obtidas as respostas motoras, autonômicas e comportamentais frente ao estímulo doloroso, levando a catabolismo protéico, aumento da freqüência respiratória e cardíaca, aumento das pressões arterial e intracraniana e diminuição da oxigenação.


2. Avaliação da dor

Dentro da prática pediátrica, às vezes é difícil avaliar o grau de dor ou desconforto que a criança está sentindo e esta dificuldade é inversamente proporcional à idade do paciente.

Várias escalas foram propostas (tabelas 1 e 2), porém geralmente elas levam em conta a avaliação subjetiva do examinador frente à criança submetida a um estímulo doloroso, o que pode falsear o resultado.

 

 

 

 

Tabela 1 - Escala de Necker-Enfant Malades (utilizada em recém-nascidos e lactentes de até seis meses)

Parâmetro

0

1

2

Minutos de sono em 1 hora

Acordado

5-10 minutos

> 10 minutos


Expressão facial de dor

Constante

intermitente

calmo

Choro

Doloroso

moderado

ausente


Atividade motora

agitação constante

agitação moderada

normal

Excitabilidade espontânea

tremor/clônus/ moro espontânea

reatividade aumentada aos estímulos

quieto


Flexão dos dedos


pronunciada e constante

menos pronunciada e intermitente

ausente

Sucção

ausente ou desorganizada

intermitente com choro

normal

Consolo

nenhum após 20 minutos

quieto após 1 minuto

calmo antes de 1 minuto

Sociabilidade

Ausente

difícil

fácil

Tônus


hipertonia importante

hipertonia moderada

normal

Avaliação: <5- dor intensa; 5 a 10 - dor moderada; 10 a 15 - dor leve; >15 - analgesia satisfatória; 20 - analgesia completa.

Tabela 2 - Escala Objetiva de Dor (utilizada em todas as faixas etárias pediátricas)

Parâmetro

0

1

2

Pressão arterial sistólica

<= 10% basal

11-20% basal

> 21% basal

Choro

Ausente

presente e consolável

presente e inconsolável

Movimentação

Quieto

sem repouso

esperneando

Agitação


adormecido ou calmo

leve

histérico

Verbalização e postura

adormecido ou sem relatar dor (relaxado)

dor leve ou sem localização (flexão de extremidades)

dor moderada e localizada (apontando o local da dor)

Avaliação: >= 6 - dor importante e deve ser utilizado analgésico potente.

3. Anestésicos locais

A anestesia tópica adequada é fundamental na prevenção e tratamento da dor na prática pediátrica, sobretudo no que diz respeito à realização de procedimentos invasivos, garantindo bem-estar à criança e maior taxa de sucesso com menor incidência de intercorrências durante a sua realização.

3.1. Lidocaína

A lidocaína é o principal anestésico local utilizado para a realização de procedimentos como punções venosas profundas, punções arteriais, toracocenteses, punções liquóricas, punções medulares, suturas e pequenas cirurgias.

Seu mecanismo de ação ocorre por redução da permeabilidade da membrana neuronal ao sódio, o que resulta em inibição da despolarização com conseqüente bloqueio da condução nervosa.

Deve ser aplicada por infiltração através de agulha no local do procedimento, tomando-se o cuidado de se evitar administração intravascular. A dose varia de acordo com o procedimento, o grau e o tempo de anestesia desejada e a vascularização do tecido.

A dose máxima recomendada é de 5mg/kg até 7mg/kg (quando formulada com adrenalina). Como a apresentação mais comumente utilizada é a Lidocaína a 2%, estas doses máximas correspondem respectivamente a 0,25 a 0,35 ml/kg.

O pico de ação ocorre após cerca de 5 minutos e a anestesia dura cerca de 1 a 2 horas. A sua ação é potencializada pela associação com adrenalina que reduz a absorção sistêmica da droga devido à vasoconstrição local.

Porém, este tipo de formulação não deve ser utilizado em locais de circulação terminal como dedos e pênis, no sentido de se evitar isquemia por vasoconstrição e necrose distal.

A administração intravenosa inadvertida na lidocaína pode causar bradicardia, bloqueio cardíaco com parada cardíaca, arritmias, hipotensão e choque, além de depressão respiratória e broncoespasmo.

Do ponto de vista neurológico, a lidocaína pode causar agitação, alucinações, convulsões e coma. Níveis séricos acima de 6µg/ml são considerados potencialmente tóxicos.

 

 


3.2. EMLA® (Eutetic Mixture of Local Anesthetics)

Atualmente vem ganhando espaço dentro da anestesia tópica a utilização de um creme composto por lidocaína a 2,5% e prilocaína a 2,5%, que pode ser utilizado sobre a pele intacta promovendo anestesia local para procedimentos como punções venosas periféricas ou arteriais, como também em punções torácicas ou lombares (3).

Seu início de ação ocorre cerca de 1 horas após a aplicação tópica e dura cerca de 1 a 2 horas. A sua aplicação é feita na dose de 2g/10cm2 na forma de um curativo oclusivo.

Não deve ser aplicado sobre mucosas ou em áreas da pele com soluções de continuidade. A área máxima aplicada recomendada varia com o peso da criança e pode ser vista na tabela 3 (4).


Tabela 3 - Recomendações da área máxima aplicada com EMLA® (pele intacta)

Peso da criança (Kg)

Área máxima aplicada (cm2)

<10

100

10-20

600

>20

2000

 

A principal toxicidade do creme EMLA® é o risco de desenvolvimento de meta-hemoglobinemia, sobretudo quando associado com outras drogas que também induzam a este distúrbio.


4. Analgésicos não-opióides

O grupo dos analgésicos não-opióides consiste nos antiinflamatórios não hormonais (AINH) que produzem analgesia através do bloqueio periférico de prostaglandinas.

São as drogas mais comumente utilizadas no controle da dor, por sua baixa toxicidade, poucos efeitos cardiovasculares e respiratórios. Porém o efeito analgésico dos AINH é limitado, sendo ineficazes em algumas situações nas quais analgésicos mais potentes devem ser utilizados. Os AINH também apresentam atividade antipirética e são desprovidos de efeitos sedativos.

Os principais efeitos colaterais estão relacionados com reações de hipersensibilidade, epigastralgia, náuseas, vômitos, gastrites e sangramento gastrintestinal. Causam também alteração na agregação plaquetária e alterações renais por nefrite intersticial.

Na faixa etária pediátrica, deve-se lembrar que os AINH podem causar o fechamento do ducto arterioso em recém-nascidos. Os AINH são metabolizados pelo fígado e excretados pelos rins.

Os principais AINH utilizados na faixa etária pediátrica, são:

1-2/4

Efeitos adversos

Hipersensibilidade, epigastralgia, gastrites, úlceras, inibição plaquetária

Observações

Não utilizar em pacientes com varicela ou infecções pelo vírus Influenza, devido à associação com Síndrome de Reye

 

Dipirona

Dose

12,5-25mg/kg, com intervalos de 4-6 horas

Dose máxima

500mg

Via

Oral/intramuscular/intravenosa

Pico/Duração (h)

1-2/4

Efeitos adversos

Agranulocitopenia idiossincrásica, hipersensibilidade

Observações

Potente ação antipirética

 

 

 

 

Acetaminofen

Dose

10-15mg/kg, com intervalos de 6-8 horas

Dose máxima

1000g

Via

Oral / retal

Pico/Duração (h)

1-2/4

Efeitos adversos

Hipersensibilidade, discrasias sangüíneas (pancitopenia), necrose hepática com falência hepática fulminante quando utilizado em doses 10 vezes maiores que a dose terapêutica, pelo aumento de um metabólito (N-acetil-imidoquinona) que é hepatotóxico.

Observações

Não possui efeitos antiinflamatórios, contra-indicado em pacientes com deficiência de G6PD. Ação sinérgica com o uso de opióides (normalmente codeína)

 

Ibuprofeno

Dose

5-10mg/kg, com intervalos de 6-8 horas

Dose máxima

400-800mg

Via

Oral

Pico/Duração (h)

1-2/6-8

Efeitos adversos

Neutropenia, anemia, agranulocitose e inibição da agregação plaquetária

Observações

Indicado para tratamento de artrite reumatóide juvenil

 

Naproxeno

Dose

5-7mg/kg, com intervalos de 8-12 horas

Dose máxima

500mg

Via

Oral

Pico/Duração (h)

2-3/8-12

Efeitos adversos

Uso cauteloso em pacientes com doenças gastrintestinais, cardíacas, renais e hepáticas

Observações

Administração com alimento ou leite pode reduzir o desconforto gastroinstestinal

 

Diclofenaco

Dose

2-3mg/kg, com intervalos de 6-8 horas

Dose máxima

50-100mg

Via

Oral / intramuscular

Pico/Duração (h)

1-2/6-8

Efeitos adversos

Nefrite intersticial, distúrbios hematológicos e gastrintestinais

Observações

Tratamento de dor moderada

 

Ketorolac (5,6)

Dose

0,5-1mg/kg, com intervalos de 6-8 horas

Dose máxima

15-30mg

Via

Intramuscular / Intravenoso

Pico/Duração (h)

1-2/4-6

Efeitos adversos

Inibição da agregação plaquetária, dispepsia, sangramento gastrointestinal

Observações

Uso em crianças abaixo de 16 anos ainda não foi aprovado. Medicação ainda não disponível no Brasil

 

5. Analgésicos opióides

Os derivados do ópio são usados em analgesia há séculos. Seus efeitos neurológicos incluem sedação e sonolência, porém podem causar também euforia, agitação, tremores e até convulsões. Os opióides são metabolizados pelo fígado e excretados pelos rins.

A ação nos receptores opióides determina o mecanismo de ação, as propriedades clínicas e os efeitos adversos. São conhecidos diversos receptores opióides: micra 1 e 2, kappa, delta e sigma, sendo os receptores micra e kappa, os responsáveis pela analgesia supra-espinhal e espinal.

Os opióides de uma maneira geral levam à depressão respiratória, dependendo da dose, da velocidade de infusão e da associação com outras drogas sedativas. Estas drogas também causam liberação de histamina, ocasionando prurido, broncoespasmo, vasodilatação e hipotensão.

Outros efeitos relacionados com a utilização de opióides são diminuição do reflexo da tosse, náuseas, vômitos, espasmo biliar, constipação e retenção urinária.

Tolerância, dependência física e psíquica são fenômenos associados com o uso prolongado de opióides, não sendo motivo de preocupação em uso por tempo limitado.

Os opióides possuem um antagonista específico, o Naloxone (dose de 0,1mg/kg/dose) que bloqueia a ação em todos os receptores. Desta forma, ele reverte não só os efeitos indesejados do opióide, como também a analgesia.

Os principais opióides utilizados na prática pediátrica estão relacionados abaixo.

 

Codeína

Dose

0,5-1mg/kg, com intervalos de 4-6 horas

Dose máxima

60mg

Via

Oral

Pico/Duração (h)

0,5-1/3-4

Efeitos adversos

Prurido, retenção urinária, constipação

Observações

Utilizado em associação com acetaminofeno. Pode ser utilizado também com intuito antitussígeno.

Morfina

Dose

Oral: 0,2-0,5mg/kg, com intervalos de 4-6 horas
IM/IV/SC: 0,1-0,2mg/kg, com intervalos de 2-4 horas
Infusão contínua: 0,025-2,6mg/kg/h

Dose máxima

Oral: 10-30mg
IM/IV/SC: 15mg

Via

Oral/Intramuscular/Intravenosa/Subcutânea

Pico/Duração (h)

Oral: 1/3-5
IM: 0,5-1/3-5
IV: 20minutos/3-5

Efeitos adversos

Prurido, retenção urinária, constipação

Observações

Utilizado em associação com acetaminofeno. Pode ser utilizado também com intuito antitussígeno.

 

Meperidina

Dose

1-2mg/kg, com intervalos de 3-4 horas
Infusão contínua: 0,3-0,7mg/kg/h

Dose máxima

50-150mg

Via

Intravenosa/Oral/Intramuscular/Subcutânea

Pico/Duração (h)

Oral:1hora / 2-4 horas
IV: 5minutos/2-3horas

Efeitos adversos

Convulsões devido a ação de seu metabólito, a normeperidina

Observações

Menor efeito analgésico entre os opióides

 

Fentanil

Dose

1-4 mcg/kg/dose, com intervalos de 1-2horas
Infusão contínua: 1-20mcg/kg/hora

Dose máxima

400mcg

Via

Intravenosa

Pico/Duração (h)

2-3 minutos/20-30 minutos

Efeitos adversos

Sedação, síndrome da rigidez da caixa torácica (relacionada com doses acima de 5mcg/kg ou rápida infusão)

Observações

Cem vezes mais potente que a morfina. Apresentação oral disponível na forma de pirulitos.

 Alfentanil

Dose

5-20 mcg/kg/dose, em infusão lenta
Infusão contínua: 0,5-3mcg/kg/min

Dose máxima

Até 75mcg/kg

Via

Intravenosa

Pico/Duração (h)

5 minutos/15-20 minutos

Efeitos adversos

Síndrome da rigidez da caixa torácica (7)

Observações

Potência analgésica cerca de 10 vezes maior que o fentanil, uso em pediatria ainda restrito e preferencialmente em anestesias

 


Bibliografia

1) Miyake RS, Goes PF, Sedação e Analgesia in Reis AG, Grisi S. Manual de Pronto-Socorro em Pediatria Clínica, Ed, Atheneu, 1997, p69-79.

2) Gomes VA, Laurenti E. Sedação, Analgesia e Miorrelaxantes in Stape A, Troster EJ, Kimura HM et al, Manual de Normas - Terapia Intensiva Pediátrica, Ed Sarvier, 1998, p46-53.

3) Proudfoot J. Analgesia, anesthesia and conscious sedation, Emerg Med Clin of N Amer, 13(2):357-379, 1995.

4) Taketomo CK, Hodding JH, Kraus DM. Pediatric Dosage Handbook, 6ed, Lexi-Comp Inc, 1999.

5) Buck ML. Clinical experience with Ketorolac in children, Ann Pharmacother, 28(9):1009-13, 1994.

6) Maunuksela E, Kokki H, Bullingham RES. Comparision of intravenous Ketorolac with Morphine for postoperative pain in children, Clin Pharmacol Ther, 52(4):436-43, 1992.

7) Pokela ML, Ryhanen PT, Koivisto ME, et al. Alfentanil-induced rigidity in newborn infants, Anesth Analg, 75(2):252-7, 1992


 Este artigo  foi enviado pela Dra. Débora Nunes, Chefe da Unidade de Neonatologia do Hospital Anchieta e Intensivista neonatal da Unidade de Neonatologia do Hospital Regional da Asa Sul, Secretaria de Estade de Saúde do Distrito Federtal