Categoria: Distúrbios Neurológicos

CONVULSÕES NEONATAIS: MAIS QUE OS OLHOS PODEM VER

CONVULSÕES NEONATAIS: MAIS QUE OS OLHOS PODEM VER

Courtney Wusthoff (EUA) 

NEOBRAIN BRASIL 2019. Congresso Internacional-PBSF em Neuroproteção e Neuromonitorização Neonatal, São Paulo, 8-9 de novembro de 2019

Reprodução da Conferência realizada por Paulo R. Margotto.

EM RESUMO…

 

É enfatizado a importância do uso do EEG contínuo (cEEG) na detecção das CONVULSÕES SUBCLÍNICAS. Essas se associam ao aumento da pressão intracraniana,  além potencializar o sofrimento metabólico do paciente com lesão cerebral e, portanto, pode levar a lesão celular permanente. Na Encefalopatia hipóxico-isquêmica (EIH), a gravidade das convulsões em recém-nascidos humanos com asfixia perinatal é independentemente associada à lesão cerebral. As convulsões por si só podem piorar o desenvolvimento cerebral (~ 80% das crises neonatais são sintomáticas de lesão cerebral!) Tanto no período perioperatório como pós-operatório a ocorrência das convulsões detectadas no cEEG na Doença Cardíaca associou-se a piores resultados tanto aos 4 anos como aos 16 anos de vida. As convulsões neonatais não são diagnosticadas com segurança por observação clínica sozinha (até 85% das crises neonatais não apresentam sinais clínicos), além de que até 75% das crises clínicas suspeitas não são convulsões epilépticas! O desacoplamento eletroclínico é comum ( ~ 50% após fenitoína ou fenobarbital), ou seja ou seja,  os sinais desaparecem, mas a convulsão continua. Não podemos diagnosticar convulsões somente olhando o bebê. Eles fazem todos os movimentos esquisitos, como olhar estranho, espasmos. A gente acha que é convulsão. A vídeo monitorização eletroencefalográfica contínua (cEEG) é o padrão ouro para convulsões neonatais, no entanto, existem barreiras à implementação desta tecnologia. No entanto, o EEG de amplitude integrada (aEEG) é uma alternativa útil se o cEEG for indisponível. É uma ferramenta de neurofisiologia à beira do leito que utiliza um número de canais para gravar o sinal do EEG bruto que é filtrado, retificado, processado e exibido em amplitude semilogarítmica e escala compactada no tempo. E uma ferramenta útil que pode complementar, embora não substitua o cEEG. Com o uso do aEEG versos cEEG em bebês submetidos à hipotermia, o risco do uso de anticonvulsivante caiu em 67% com o uso do cEEG. Olhando somente para os bebes com aEEG, o percentual de uso de anticonvulsivantes caiu para 38%. Assim conseguiram manter o tratamento apenas naqueles bebes que estavam com convulsões. A curto prazo do uso do aEEG você está ajudando  realmente a não expor  o uso excessivo de medicamentos nesses bebes. Devemos sempre avaliar a causa das convulsões neonatais, mesmo que a ressonância seja normal. Tenha uma abordagem consistente para o tratamento de convulsões neonatais. Confirme que “convulsões” são convulsões reais (convulsões não tratadas podem contribuir para piora dos resultados, no entanto o tratamento excessivo não é benigno). As convulsões subclínicas devem ser tratadas. O fenobarbital continua sendo a base do tratamento para convulsões neonatais: funciona em 80% dos casos. Portanto, use EEG ou aEEG para confirmar todas as suspeitas de convulsões neonatais, para rastrear convulsões em neonatos de alto risco; para novas convulsões, procure causas reversíveis; use a RM para avaliar a etiologia e planeje o acompanhamento visando desenvolvimento neurológico para todos os bebês com convulsões.

Perfil dos pacientes submetidos a monitorização continua com eletroencefalograma de amplitude integrada (aEEG) em uma Unidade de Terapia Intensiva Neonatal do Distrito Federal

Perfil dos pacientes submetidos a monitorização continua com eletroencefalograma de amplitude integrada (aEEG) em uma Unidade de Terapia Intensiva Neonatal do Distrito Federal

Lorena de Mello Ferreira Silva Andrade. Coordenação: Marta David Rocha de Moura. Revisão: Paulo R. Margotto

Hospital Materno Infantil de Brasília

Introdução: Epilepsia é definida como um evento neurofisiológico representando pela atividade elétrica anormal, sendo equivalentes convulsivos caracterizados como alteração na função neurológica se manifestando com alterações motoras. As crises podem estar associadas com alteração em eletroencefalograma (EEG), mas às vezes se manifestam como eventos paroxísticos em que não há correlação com descargas elétricas em EEG. Objetivo: Caracterizar o perfil clínico dos recém-nascidos que foram submetidos à eletroencefalograma contínuo de amplitude integrada internados na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal do Hospital Materno Infantil de Brasília e avaliar o desfecho final do RN durante essa monitorização. Materiais e métodos: Estudo observacional de coorte retrospectivo no Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB). Foram analisados os prontuários dos 32 pacientes que foram submetidos à monitorização contínua com EEG de amplitude integrada, entre setembro de 2018 e maio de 2019 internados na UTI Neonatal desse Hospital. Resultado: Foram incluídos 32 participantes de pesquisa que atenderam aos critérios de inclusão. 65,6% das pacientes entraram em trabalho de parto, sendo o parto cesárea o mais frequente na amostra, com 62,5% dos casos, a indicação do parto por doença hipertensiva (28,1%) teve mais casos na amostra, seguida de malformação (12,5%); RNs do sexo masculino (65,6%), com a classificação AIG (87,5%) foram mais frequentes na amostra. Houve ocorrência de 25% de atividades epilépticas, dos quais, em 87,5% as crises foram subclínicas; 56% usaram anticonvulsivantes e desses, 25% usaram mais de um, ou seja, 31% (1/3) usaram anticonvulsivantes desnecessariamente. Nenhum dos 18,8% pacientes que foram a dos óbitos apresentou crise epiléptica eletrográfica. Conclusão: Neste estudo, demonstramos a ocorrência de 25% de atividades epilépticas, dos quais, 87,5% as crises foram subclínicas; 56% usaram anticonvulsivantes e desses, 25% usaram mais de um, ou seja, 31% (1/3) usaram anticonvulsivantes desnecessariamente. Não houve correlação entre óbito com possíveis alterações em SNC. Outro dado registrado foi a quantidade semelhante pacientes a termo e pré-termos que apresentaram crise, porém ressaltamos a limitação devido a quantidade pequena de pacientes avaliados.

Monografia-Neonatologia (HMIB)-2020:Perfil dos pacientes submetidos a monitorização continua com eletroencefalograma de amplitude integrada (aEEG) em uma Unidade de Terapia Intensiva Neonatal do Distrito Federal

Monografia-Neonatologia (HMIB)-2020:Perfil dos pacientes submetidos a monitorização continua com eletroencefalograma de amplitude integrada (aEEG) em uma Unidade de Terapia Intensiva Neonatal do Distrito Federal

Lorena de Mello Ferreira Silva Andrade

Coordenação: Marta David Rocha de Moura

Introdução: Epilepsia é definida como um evento neurofisiológico representando pela atividade elétrica anormal, sendo equivalentes convulsivos caracterizados como alteração na função neurológica se manifestando com alterações motoras. As crises podem estar associadas com alteração em eletroencefalograma (EEG), mas às vezes se manifestam como eventos paroxísticos em que não há correlação com descargas elétricas em EEG. Objetivo: Caracterizar o perfil clínico dos recém-nascidos que foram submetidos à eletroencefalograma contínuo de amplitude integrada internados na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal do Hospital Materno Infantil de Brasília e avaliar o desfecho final do RN durante essa monitorização. Materiais e métodos: Estudo observacional de coorte retrospectivo no Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB). Foram analisados os prontuários dos 32 pacientes que foram submetidos à monitorização contínua com EEG de amplitude integrada, entre setembro de 2018 e maio de 2019 internados na UTI Neonatal desse Hospital. Resultado: Foram incluídos 32 participantes de pesquisa que atenderam aos critérios de inclusão. 65,6% das pacientes entraram em trabalho de parto, sendo o parto cesárea o mais frequente na amostra, com 62,5% dos casos, a indicação do parto por doença hipertensiva (28,1%) teve mais casos na amostra, seguida de malformação (12,5%); RNs do sexo masculino (65,6%), com a classificação AIG (87,5%) foram mais frequentes na amostra. Houve ocorrência de 25% de atividades epilépticas, dos quais, em 87,5% as crises foram subclínicas; 56% usaram anticonvulsivantes e desses, 25% usaram mais de um, ou seja, 31% (1/3) usaram anticonvulsivantes desnecessariamente. Nenhum dos 18,8% pacientes que foram a dos óbitos apresentou crise epiléptica eletrográfica. Conclusão: Neste estudo, demonstramos a ocorrência de 25% de atividades epilépticas, dos quais, 87,5% as crises foram subclínicas; 56% usaram anticonvulsivantes e desses, 25% usaram mais de um, ou seja, 31% (1/3) usaram anticonvulsivantes desnecessariamente. Não houve correlação entre óbito com possíveis alterações em SNC. Outro dado registrado foi a quantidade semelhante pacientes a termo e pré-termos que apresentaram crise, porém ressaltamos a limitação devido a quantidade pequena de pacientes avaliados.

Artigo 5245 (7/3/2020): O Cérebro do Recém-Nascido com Cardiopatia Congênita

Artigo 5245 (7/3/2020): O Cérebro do Recém-Nascido com Cardiopatia Congênita

Paulo R. Margotto.

À luz da ressonância magnética, mais da metade dos recém-nascidos portadores de cardiopatia congênita apresentam anormalidades neurológicas antes da cirurgia; achados clínicos recentes indicam que o desenvolvimento cerebral alterado que ocorre na vida fetal é a principal causa do resultado neurocognitivo nessas crianças; existem muitas semelhanças nas alterações cerebrais e nos resultados do desenvolvimento neurológico associados ao nascimento prematuro versus cardiopatia congênita; a lesão de substância branca é o padrão característico de lesão cerebral em recém-nascidos prematuros: bebês a termo com cardiopatia congênita têm uma incidência surpreendentemente alta de lesão da substância branca; recentemente evidenciou-se não haver diferenças significativas, quanto à lesões cerebrais, ente cardiopatia congênita crítica e cardiopatia congênita cianótica;   recém-nascidos a termo com doença cardíaca congênita apresentam atraso no desenvolvimento cerebral de aproximadamente um mês, equivalente a um recém-nascido prematuro com IG entre 34 e 36 semanas; assim a imaturidade cerebral é o substrato sobre a qual outros insultos, como hipotensão e hipoxemia, levam à lesão por esse mecanismo; o impacto não se restringe apenas a substância branca, mas também  ao desenvolvimento cortical imaturo, hoje um grande desafio na cardiopatia congênita; Atividade cerebral anormal foi o único fator de risco associado à nova lesão cerebral pós-operatória na análise de regressão logística multivariável (OR, 4,0; IC95%, 1,3-12,3; P = 0,02);  quanto ao ultrassom (US) cranianoÍndice de resistência (IR) mais alto nos principais vasos sanguíneos cerebrais após cirurgia cardíaca no período neonatal está associado a melhores resultados neurológicos com um ano após a cirurgia (indicativo de preservação da vasorreatividade normal e autorregulação devido à ausência de isquemia cerebral significativa). Portanto, esses achados alertam para a necessidade de estratégias intraútero para promover o desenvolvimento ideal do cérebro, bem como o potencial de intervenções clínicas visando à estabilidade hemodinâmica e a oxigenação ideal para reduzir o ônus das lesões cerebrais no pré e pós-operatório.

Neurossonografia Neonatal – compartilhando imagens: Importância do Índice de Resistência (IR) na Síndrome Hipóxico-Isquêmica

Neurossonografia Neonatal – compartilhando imagens: Importância do Índice de Resistência (IR) na Síndrome Hipóxico-Isquêmica

Paulo R. Margotto.

Recém-Nascido (RN) do dia 27/1/2020, 40 sem6 dias, Apgar de 1,4 e 7, peso ao nascer de 2810g, Pequeno para a idade gestacional, circular de cordão, parto normal, trabalho de parto prolongado. Desenvolveu crise convulsiva no primeiro dia de vida. Submetido à hipotermia terapêutica.

O primeiro ultrassom (US)  transfontanelar  foi realizado  no primeiro dia de vida  em hipotermia terapêutica, sendo evidenciado Índice de Resistência (IR) de 0,54 (baixo).

O segundo US transfontanelar realizado aos 7 dias de vida mostrou IR de 0,47 (muito baixo), quando solicitamos a realização de ressonância magnética(RM).

Eletroencefalograma aos 7 dias de vida: atividade elétrica cerebral acentuadamente desorganizada de muita baixa voltagem

Ressonância magnética aos 15 dias de vidainjúria hipóxico-isquêmica grave em neonato a termo

Eletroencefalograma aos 25 dias de vida: assimetria da atividade elétrica com menor amplitude dos ritmos localizados no hemisfério cerebral esquerdo que pode estar relacionado à lesão estrutural

Com 22 dias de vida:  dilatação biventricular + hiperecogenicidade  nos núcleos da base e cistos porencefálicos em formação  na substância branca

US transfontanelar aos 29 dias de vida: dilatação biventricular +leucomalácia periventricular multicística + hiperecogenicidade nos núcleos da base

Neurossonografia Neonatal-compartilhando imagens: Hiperecogenicidade periventricular – Leucomalácia periventricular multicística

Neurossonografia Neonatal-compartilhando imagens: Hiperecogenicidade periventricular – Leucomalácia periventricular multicística

Paulo R. Margotto.

Caso Clinico: RN pré-termo (28 sem), peso ao nascer de 1430g,  1 dose de betametasona, cesariana por Apresentação Pélvica, necessitou de reanimação com intubação endotraqueal; recebeu um dose de surfactante com FiO2 de 60%  e Saturação de O2 de 75%. Ultrassons  cranianos  realizados com 9 dias de vida (intensa hiperecogenicidade periventricular-setas), aos 16 dias e 31 dias de vida (dilatação biventricular e leucomalácia periventricular multicística-setas).

Neurossonografia Neonatal-compartilhando imagens: hemorragia intraventricular + lesão nos núcleos da base

Neurossonografia Neonatal-compartilhando imagens: hemorragia intraventricular + lesão nos núcleos da base

Recém-nascido (RN) de 33 semanas e 2 dias, 2075 gramas, 6 consultas no pré-natal (1º Trimestre), mãe com febre e leucocitose, bolsa rota (suspeito de corioamnionite); recebeu 2 doses de betametasona; parto normal; banhado em mecônio espesso, reanimado com máscara e Baby Pupp e encaminhado à UTI Neonatal; Apgar de 6/7; na admissão o bebê apresentou Saturação de O2 de 18% e frequência cardíaca de 80 bpm, PaCO2 de 162 mmHg, pH de 6,7, BE de -10,  sendo intubado e ventilado em alta frequência. O Rx de tórax mostrou hérnia diafragmática congênita  (HDC) à esquerda (figura) O  RN teve a correção da HDC aos 6 dias de vida. Persiste em ventilação de alta frequência.

Cuidados diários voltados para o neurodesenvolvimento no recém-nascido com encefalopatia hipóxico-isquêmica (Developmental care for babies with HIE)

Cuidados diários voltados para o neurodesenvolvimento no recém-nascido com encefalopatia hipóxico-isquêmica (Developmental care for babies with HIE)

Kathi Salley Randal (EUA). NEOBRAIN BRASIL 2009 (8 a 9 de novembro).

Reprodução da Conferência realizada por Paulo R. Margotto.

O cuidado do desenvolvimento tem emergido como um conceito de cuidado neuroprotetor na prevenção de consequências a longo prazo associadas ao ambiente físico, promoção da ótima organização e desenvolvimento do prematuro na UTI Neonatal, assim como a Integração dos Pais com os Cuidadores.Entre as medidas:

1) o posicionamento com cabeça e tronco alinhados na linha média, membros flexionados [promover a flexão e evitar a extensão]; 2) promover o sono: normalização precoce do aEEG e início precoce do sono-vigília prevê um bom resultado; nunca alcançar o sono-vigília sempre prediz resultado ruim;

3) otimizar a nutrição: os que receberam nutrição enteral que era 10 ml começaram a interromper a nutrição parenteral  4 dias antes, iniciaram a dieta oral plena 10 dias antes e o tempo de hospitalização foi de 9 dias antes; 4) cuidados para evitar a necrose gordurosa subcutânea 5) dor: sedoanalgensia durante a hipotermia é prevalente, mas não é uma conduta uniforme entre os Centro: os opioides foram administrado em 64% dos neonatos e houve aumento de 30% de 2008  2015);6) percepção dos pais no resfriamento: incorporar os pais nos cuidados da UTI Neonatal, deixando-os voltarem a ser pais, tocar, segurar os bebes; o reaquecimento deve ser considerado um tempo de renascimento; os bebes com EHI não podem perder a chance de experiências precoces de ligação com os seus pais; Ao sair do reaquecimento você deve fornecer elementos aos pais para  o bebê voltar a ser deles

Após o resfriamento: esses bebês  que foram  resfriados tem um tipo de fenótipo de comportamento:pobre estado de sono e vigília,  eles não tem  um bom controle do tônus, não sugam, alterações  nas vias aéreas ; 80% apresentavam essas alterações, mas caiu para  50-10% próximo à alta. Então é importante avaliar; e necessária uma estimulação oral precoce; perceber esses sinais de excesso: esses bebês choram, dormem, depois choram de novo: podemos  ensinar aos pais como lerem esses sinais: respeitar quando o bebe quer dizer “eu preciso sair um pouquinho, está de demais para mim”, ficam  revirando os olhos, mas você diz que quer ver ele, precisamos de  dar eles um tempo e depois eles voltam.

Portanto, recém-nascidos com encefalopatia hipóxico-isquêmica que estão em resfriamento  e seus pais: evitar o risco de consequências negativas da experiência na UTI Neonatal; simples intervenção pode desempenhar papel na melhora do neurodesenvolvimento e nos desfechos emocionais após a alta. O que você escolhe fazer?

NEOBRAIN BRASIL 2019: Tema discutido hoje (9/11/2019) na Conferência da Dra. Lina Chalak (EUA):Efeitos da hipotermia terapêutica iniciada após 6 horas de idade na morte ou desabilidade entre os recém-nascidos com encefalopatia hipóxico-isquêmica: Ensaio clínico randomizado

NEOBRAIN BRASIL 2019: Tema discutido hoje (9/11/2019) na Conferência da Dra. Lina Chalak (EUA):Efeitos da hipotermia terapêutica iniciada após 6 horas de idade na morte ou desabilidade entre os recém-nascidos com encefalopatia hipóxico-isquêmica: Ensaio clínico randomizado

Effect of Therapeutic Hypothermia Initiated After 6 Hours of Age on Death or Disability Among Newborns With Hypoxic-Ischemic Encephalopathy: A Randomized Clinical Trial.

Laptook AR, Shankaran S, Tyson JE, Munoz B, Bell EF, Goldberg RN, Parikh NA, Ambalavanan N, Pedroza C, Pappas A, Das A, Chaudhary AS, Ehrenkranz RA, Hensman AM, Van Meurs KP, Chalak LF, Hamrick SEG, Sokol GM, Walsh MC, Poindexter BB, Faix RG, Watterberg KL, Frantz ID 3rd, Guillet R, Devaskar U, Truog WE, Chock VY, Wyckoff MH, McGowan EC, Carlton DP, Harmon HM, Brumbaugh JE, Cotten CM, Sánchez PJ, Hibbs AM, Higgins RD; Eunice Kennedy Shriver National Institute of Child Health and Human Development Neonatal Research Network. JAMA. 2017 Oct 24;318(16):1550-1560. doi: 10.1001/jama.2017.14972.PMID: 29067428S.

Apresentação: Matheus Klettenberg R2-PEDIATRIA/HMIB/SES/DF.Coordenação:  Paulo R.  Margotto

Devido a probabilidade elevada de desfechos devastadores/catastróficos associados a encefalopatia hipóxico-isquêmica (EHI justificou a realização desse ensaio.A hipotermia terapêutica (HT )pode demorar mais de 6 horas para ser iniciada quando o paciente reside em áreas remotas e necessita de transporte ou a EHI leva mais de 6 horas p/ ser reconhecida.O presente estudo foi  randomizado, multicêntrico, conduzido, durante 8 anos, para analisar a probabilidade da redução dos atraso do neurodesenvolvimento psicomotor e mortalidade aos 18 meses nas crianças com EHI submetidas a hipotermia terapêutica entre 6-24 horas de vida, quando comparadas ao grupo controle não resfriado. Um estudo definitivo para determinar o risco/benefício da HT não pode ser conduzido pois não alcançaria uma quantidade suficiente de pacientes para ser estatisticamente válido em um período de tempo viável.Foram recrutados 168 RN com EHI ≥36 semanas d gestação (83 resfriados e 85 não resfriados).O resfriamento >6 horas foi mantido por 96 horas (estudo prévio que evidenciou, que eram necessárias mais horas de resfriamento para se alcançar neuroproteção, nos RN que demoravam mais ao iniciar a HT).Realizar esse estudo foi difícil devido ao número limitado de bebês esperado  que fossem envolvidos. Assim, para superar essa limitação, os pesquisadores usaram uma Análise Bayesiana do efeito do tratamento para garantir que um resultado clinicamente útil seria obtido mesmo se as abordagens tradicionais para a definição da significância  estatística fosse impraticável. A Análise Bayesiana permite a integração ou atualização de informações prévias com novos dados para obter um resumo final da informação.Laptook et al consideraram várias opções para a representação de informação prévia a respeito da HT >6 horas – denominada neutra (o efeito diminui), cética (o efeito é detrimental) e otimista (o efeito não diminui)  gerando diferentes resumos finais da evidência. Estatística Bayesiana é um ramo da estatística que usa o termo probabilidade, da mesma forma que usamos esse termo diariamente, como uma medida condicional da incerteza associada com a ocorrência de um evento.Os autores encontraram 76% de probabilidade de benefício com a informação anterior neutra, uma probabilidade de benefício de 90% com a informação anterior entusiasta e uma probabilidade de 73% de benefício com a informação cética anterior. Usando informações prévias sobre a probabilidade da HT entre 6-24 horas 6 horas que seja efetiva nos RN com EHI, os autores afirmaram  que há uma probabilidade de 76% de qualquer redução na morte ou deficiência, e uma probabilidade de 64% de pelo menos 2% menos de condição de morte ou desabilidade aos 18-22 meses. Interessante outras terapias neonatais e adultas já foram recomendas mesmo com baixa redução do risco absoluto: tal qual: redução 1,6% de paralisia cerebral com uso de sulfato de magnésio, um tratamento amplamente usado na obstetrícia, em 10% de redução do risco cardiovascular ao uso de estatina, quando o risco absoluto de redução de morte e incapacidade foi de 0,4% e 1,4%. É importante que tenhamos em mente que o resultado deste artigo não muda a prioridade de identificar e iniciar a HT antes das 6 horas de vida! O significado deste estudo é: a  HT iniciada de 6 a 24 horas para recém nascidos com encefalopatia hipóxico-isquêmica pode reduzir morte ou deficiência, mas há incerteza em sua eficácia.Com estes conhecimentos, o nosso Protocolo de Hipotermia Terapêutica será rediscutido com perspectiva de estendermos a HT além das 6 horas, priorizando aqueles bebês com grave EHI transferidos à nossa Unidade.

PROTEGENDO O CÉREBRO DO RECÉM- NASCIDO: COQUETÉIS E GELO (Protecting the newborn brain: Cocktails and Ice)

PROTEGENDO O CÉREBRO DO RECÉM- NASCIDO: COQUETÉIS E GELO (Protecting the newborn brain: Cocktails and Ice)

Donna M. Ferriero (EUA).

22º Simpósio Internacional de Neonatologia do Santa Joana, São Paulo, 11-14 de setembro de 2019. Realizado por Paulo R. Margotto

 

Torna-se necessária a proteção do cérebro dos recém-nascidos (RN), porque 1 em 2000 recém-nascidos tem acidente vascular cerebral (AVC), 1,5/1000 passam por uma experiência em  encefalopatia hipóxico- isquêmica (EHI)), 6-8/1000 tem EHI latus sensus, 1 em 8 nascimentos são prematuros (10% apresentam déficits motores maiores, 50% apresentam déficits cognitivos, comportamentais e sensoriais). No pré-termo, lesão ocorre na substância branca e assim temos que pensar nos déficits da substância branca e no a termo a lesão é localizada principalmente na substância cinzenta principalmente na parte profunda do cérebro. Quanto à hipotermia, considerado padrão de tratamento nos RN ≥36 semanas com encefalopatia hipóxico-isquêmica (EHI), os estudos demonstraram que reduz a incapacidade do neurodesenvolvimento (o número necessário para tratamento é de 7 a 8!> No entanto, 40% NÃO RESPONDEM. Como identificar esses não responsíveis: usando a RMS (ressonância magnética por espectroscopia), uma técnica avançada (C13 hiperpolarizada) e assim podemos prever como ocorre o  metabolismo da conversão do piruvato para o lactato ( os não responsíveis não fazem essa conversão). Esses bebês tem apresentado lesão na região watershed (zonas vasculares limítrofes). Se  a mãe nos informa que sentiu redução dos movimentos fetais durante o parto, podemos pensar em lesão na região watershed. Entre os fatores modificáveis da lesão cerebral estão a INFECÇÃO NEONATAL (a infecção recorrente aumento o risco de lesão na sustância branca dos pré-termos em 8 vezes: ao higienizarmos as mãos estamos protegendo a substância branca do pré-termo!); USO DO SULFATO DE MAGNESIO (diminui a hemorragia cerebelar): CORTICOSTERÓIDE PÓS-NATAL (tanto dexametasona como hidrocortisona prejudicam o desenvolvimento do cerebelo; temos que parar de usar). Quanto aos RECÉM-NASCIDOS CARDÍACOS, esses tem um desenvolvimento tardio, parecendo com o cérebro de um bebê pré-termo e não bebê a termo, ou seja, apresentam lesão na sustância branca. Esses bebês a termo com cardiopatia congênita se comportam como um bebê prematuro quanto ao desenvolvimento cerebral. Quanto aos coquetéis, o favorito é a ERITROPOIETINA (EPO): parece reduzir lesão de substância branca e assim como perda substância cinzenta, porém sem diferenças nos desfechos aos dois anos de idade. Manipulando os coquetéis com gelo, ou seja, EPO + HIPOTERMIA: o estudo de Fase III em andamento (HEAL Study) envolvendo 500 crianças (ainda faltam 12), com moderada a severa EHI, com envolvimento de 15 a 20 Centros e com avaliação dos resultados aos 2 anos de idade. A hipótese primária é que alta dose de EPO com a hipotermia reduziria o desfecho combinado de morte ou deficiente neurodesenvolvimento na idade de 22-26 meses. Adicionalmente, a EPO seria segura, diminui a severidade da lesão cerebral na RM neonatal e diminuiria citocinas inflamatórias séricas. No futuro  as células tronco farão parte dos coquetéis (há problemas a serem resolvidos, como: ótimo tipo de células, rota, dose e o momento ideal da terapia. Temos que ter em mente que a otimização do ambiente metabólico e a perfusão cerebral e a prevenção de lesões cerebrais secundárias são essenciais para o cuidado neurocrítico. Isso inclui gerenciamento rigoroso dos níveis de temperatura, pressão arterial, oxigenação, dióxido de carbono e glicose. As intervenções precoces de desenvolvimento e o envolvimento da terapia física e ocupacional fornecem informações adicionais sobre a avaliação. Finalmente, o acompanhamento a longo prazo é essencial para qualquer programa de assistência neurocrítica. Lembrar que na UTI TRATAMOS DE CÉREBROS EM DESENVOLVIMENTO! Durante a Conferência foi muito falado em ressonância magnética (RM) e foi perguntado o papel do ultrassom na UTI Neonatal, uma tecnologia disponível em nosso meio, reservando a RM posteriormente:”eu amo a RM,  mas o ultrassom craniano é extremamente valioso, principalmente se realizado nas mãos de pessoas competentes; gostaria de incentivar os Neonatologista a fazer o ultrassom craniano; os Radiologistas protegem as máquinas de ultrassom com as suas próprias vidas e não  querem que façamos o ultrassom, mas nós Neonatologistas somos capazes de fazer o ultrassom craniano; são muitos úteis, ajudam muito para pacientes instáveis,  muito úteis em prematuros e o Doppler é crucial para bebes com trombose de seios venosos para avaliar os coágulos, etc; não quero subestimar o ultrassom craniano e supervalorizar a ressonância magnética; não  quero tirar o mérito do ultrassom de cabeça que é valioso; é uma fermenta sensacional na UTI Neonatal. Com relação a RM posterior, ela é importante para bebês  com convulsões  refratárias (é malformação ou distúrbios metabólicos progressivos?).