TROMBOSE NEONATAL

TROMBOSE NEONATAL

Alexandre Peixoto Serafim. Capítulo do livro Assistência ao Recém-Nascido de Risco, Brasília, Editado por Paulo R. Margotto, 4ª Edição, 2019.

A trombose neonatal pode resultar na morte ou em grave morbidade para o bebê por causa de lesões irreversíveis aos órgãos. No entanto, a relativa raridade e a heterogeneidade das doenças trombóticas nos neonatos dificultam a avaliação científica das modalidades diagnósticas e terapêuticas de uso corrente.

A incidência estimada de tromboembolismo venoso sintomático em neonatos é de 0,24/10.000 crianças admitidas. Trombos ocorrem em cerca de 30% de todos os cateterismos venosos umbilicais, mas em sua grande maioria são assintomáticos. A trombose venosa renal é a modalidade de trombose mais frequentemente diagnosticada nas UTI neonatais. Geralmente é diagnosticada nos primeiros 2 dias de vida, o rim mais frequentemente acometido é o esquerdo e em 30% dos casos o envolvimento é bilateral. As complicações agudas da trombose renal incluem hemorragia adrenal e extensão do trombo para a veia cava inferior. Das outras modalidades de trombose, 89% estão associadas com a presença de cateter venoso central e 29% com infecção sistêmica. Os outros sítios que podem ser envolvidos incluem a veia cava inferior, a veia cava superior e o átrio direito, com ou sem trombose de uma das cavas. As veias femorais são o segundo sítio mais comum de trombose associada a cateter venoso. Vasos afetados mais raramente incluem a braquiocefálica, subclávia, jugular e ilíacas.

As tromboses arteriais são em sua maioria iatrogênicas e afetam tipicamente a aorta ou as artérias ilíacas e femorais. Artérias raramente afetadas são as pulmonares e renais. Quando é feito cateterismo arterial umbilical, a trombose pode ser encontrada em 23% dos bebês, mas a maioria é assintomática e não requer tratamento. Sintomas observados na trombose aórtica incluem isquemia mesentérica, hipertensão, disfunção renal, isquemia de membros e insuficiência cardíaca congestiva. Sua incidência pode chegar a 1-3% e é potencialmente letal.

A trombose venosa cerebral (TVC) é um capítulo à parte. Os neonatos constituem 43% dos casos de TVC em crianças. Os fatores de risco incluem o estado de hipercoagulabilidade materna associado à gravidez ou ao lúpus, os estresses mecânicos associados ao nascimento, shunts intracardíacos direita-esquerda, policitemia e o risco de desidratação nos primeiros dias de vida. Além disso, meningite e cardiopatias congênitas podem levar a TVC. É preciso um alto índice de suspeita porque sinais focais e hemiparesias são infrequentes. O seios venosos superior e lateral são os mais comumente afetados. Até 30% dos casos são seguidos de hemorragia subsequente. A abordagem geralmente é expectante e o risco de recorrência é mínimo, mas a mortalidade é de 8% e 77% dos neonatos têm algum grau de sequela neurológica